Imagine confiar em uma empresa de investimento em criptomoeda bem conhecida e que tem tudo o que se espera de uma gestora de sucesso. Ela tem um portfólio impressionante e a promessa de retornos substanciais com ajuda de um sofisticado bot de arbitragem de criptomoedas que garante pagamentos mais altos.

Mas, o que não é do conhecimento dos investidores é que essa empresa impressionante é uma farsa completa. Do site a seus anúncios – toda a estrutura de seu modelo de negócios é um provável esquema Ponzi. Trata-se de uma pirâmide financeira projetada para roubar o máximo de dinheiro possível de muitos investidores. E, depois, alegar que seu bot de arbitragem não funcionou devido a um bug. O suposto erro de computador, portanto, esvaziaria incorretamente as contas, distribuindo lucros superiores ao real. Na verdade, tudo isso seria nada mais que o famoso exit scam.

“Um esquema Ponzi cripto de um bilhão de dólares”

Esse é aparentemente o caso da ArbiStar, uma empresa de investimento em criotomoedas da Espanha. Ela é acusada de supostamente roubar quase US$ 1 bilhão em dinheiro investido por 120.000 clientes. A constatação é da Tulip Research, uma empresa de pesquisa forense especializada em análise blockchain de atividades fraudulentas. Ela descreve a ArbiStar como um esquema de criptomoedas Ponzi de um bilhão de dólares.

Esse suposto mau funcionamento do bot teria afetado 30.000 investidores cujo retorno simplesmente desapareceu sob o pretexto de “fortes perdas”. Aparentemente, essas perdas faziam parte de um esquema meticulosamente pensado.

A empresa chegou a dizer que congelaria as contas das pessoas afetadas para conter novas perdas. Ela alegou que o dinheiro seria supostamente devolvido. Eles iriam até mesmo parar de receber investimentos, dando a ilusão de que a ArbiStar seguiria com opções de redução de danos para salvar o máximo possível dos clientes.

De acordo com a ArbiStar, o erro computacional causado pelo bot supostamente criou um buraco de liquidez equivalente a 28% dos fundos totais. No entanto, alguns já denunciaram o CEO da ArbiStar, Santi Fuentes, por desvio de fundos.

Mas, o que realmente aconteceu com todo esse dinheiro? Parte dele supostamente caminhou pela dark web. Valores foram vistos circulando em um mercado negro conhecido como Hydra, o maior da dark web na Rússia.

Mas a história não termina aí. Na verdade, esse é apenas o começo.

A história sombria de Santi Fuentes

A ArbiStar é uma empresa de investimento de trade de criptomoedas situada na Espanha e é liderada por Santi Fuentes. A empresa usa marketing multinível (MLM), também conhecido como marketing de rede, marketing de referência e venda em pirâmide.

Muitas empresas respeitadas e bem-sucedidas constroem seu modelo de negócios usando estratégias de MLM para chegar onde estão hoje.

Mary Kay e Avon, por exemplo, são apenas alguns nomes famosos. No entanto, nas mãos erradas, esse modelo pode ser abusado, daí o termo popular “esquema de pirâmide”. Por isso, pode ser difícil distinguir entre uma empresa legítima e esquemas de pirâmide que apenas aparentam serem respeitáveis.

Se o marketing multinnível é a forma como a empresa se expande no sentido convencional, é interessante notar que a ArbiStar não oferece nenhum produto ou serviço vendável. As pessoas que se tornam afiliadas da marca ArbiStar só podem anunciar a própria associação afiliada da ArbiStar. Daí o termo “ponzi” – uma forma flagrante de esquema que usa o dinheiro de novos membros para pagar investidores atuais.

Operar uma pirâmide já levanta suspeitas por si só. Mas, o que realmente acende o alerta é que a ArbiStar não forneceu nenhuma prova de ter registrado sua empresa na Comissão Nacional do Mercado de Valores da Espanha.

Conforme relatado, Fuentes não registrou a empresa em lugar nenhum. O que levanta a questão: o que a ArbiStar está realmente operando nos bastidores se Fuentes não quer que a empresa seja submetida às leis regulatórias de valores mobiliários?

Fracassos suspeitos no currículo

Sobre a biografia corporativa de Fuente no site da ArbiStar, ele afirma ser “uma das pessoas mais experientes no mundo do marketing multinível. Ele liderou equipes de milhares de pessoas com grande sucesso.”

Mas, a realidade é justamente o contrário. Algumas das empresas com as quais Fuentes foi associada no passado teriam, supostamente, uma reputação nada admirável. No entanto, Fuentes aborda essas circunstâncias em outra seção de sua biografia corporativa.

“Ele também teve, como líder de equipe, o fracasso de alguns projetos em que as empresas não eram transparentes e enganavam suas equipes de vendas. Por esse motivo, ele é a pessoa ideal para liderar a ArbiStar 2.0.”

A declaração é indiretamente indicativa de que o modelo de negócios anterior da empresa não teve sucesso.

O que também é interessante notar é que Fuentes deixou de vender café medicinal para se tornar um investidor. Além disso, há poucas evidências de que ele sequer tinha alguma experiência em investimentos.

Pirâmides e fraudes mobiliárias em série

Antes de se envolver em esquemas Ponzi, Fuentes foi distribuidor da Organo Gold em 2013. Trata-se de uma infusão medicinal chinesa de café e produtos em tese saudáveis, com cogumelo Ganoderma.

Antes de chefiar a ArbiStar, Fuentes foi um dos principais investidores na Global Unity em 2014, que por sua vez estava ligada ao esquema Ponzi WCM777 com sede na Califórnia, iniciado pelo chinês Ming Xu.

O império financeiro de Xu caiu como um castelo de areia sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. No entanto, tudo aconteceu após a arrecadação de US$ 65 milhões de dólares e desvios de US$ 28 milhões de investidores ingênuos. Os valores foram depositados em várias contas bancárias nos Estados Unidos. Depois foram levados para a Hong Kong and Shanghai Banking Corporation. A instituição participou do processo de lavagem mesmo depois de ter sido avisada que o WCM777 estava operando de forma fraudulenta.

Xu, WCM777 e afiliadas ruíram por violar leis de valores mobiliários e levaram multas pesadas. Mas, nada aparentemente impediu Fuentes de buscar empreendimentos semelhantes cercados por uma atmosfera de fraude.

Após a queda da Global Unity, em 2015, Fuentes conseguiu subir de volta como um grande investidor para outra empresa de investimentos conhecida como MoneyBox TV. Mais uma vez, ela acabou por ser descoberta como mais uma pirâmide financeira.

Semelhante à ArbiStar – que ainda estava por vir – eles basearam seu modelo de negócios no marketing multinível. Havia comissão por indicação, por exemplo, algo muito comum nesse meio. A empresa estava situada na Itália e era administrada pelo CEO Simone Di Sabato, que também tinha um histórico de envolvimento em negócios questionáveis.

Então, a ArbiStar nasce logo depois. Conforme destacado acima, o seu bot de arbitragem em seguida falha, pois o dinheiro dos investidores aparentemente desaparecem. Enquanto isso, a empresa parece tentar reduzir danos. O que aconteceu a seguir pode parecer surpreendente. Mas, foi assim que surgiu a ArbiStar 2.0, mais uma vez

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com “desenvolvimento de robôs para trade de criptomoedas automatizado”.

ArbiStar e um gigante da dark web

Na dark web há uma gigante enterrado em servidores subterrâneos na Rússia. Conhecida como Mercado Hydra, ela estaria vinculada à ArbiStar, segundo a Tulip Research.

A plataforma na darknet é o maior mercado negro do país. Ela estreou em janeiro de 2015 com forte foco em mercado clandestino para usuários anônimos comprarem drogas. Mas, ela também inclui serviços de hackers, documentos falsos , depósitos de dados roubados e outros bens ilícitos. Essa mudança ocorreu quase dois anos depois que o FBI fechou o famoso Silk Road.

Uma captura de tela da interface do Hydra Market.

A Hydra afirma ter 3 milhões de contas registradas em sua rede e processa mais de 100.000 transações diárias de criptomoedas. Além disso, a plataforma tem 400.000 clientes recorrentes, de acordo com uma análise publicada no ano passado pelo veículo investigativo Proekt.

Em comparação, o maior mercado negro da darknet no Ocidente era o AlphaBay. No auge, por exemplo, acreditava-se que tinha 400.000 usuários registrados. Suas operações foram encerradas em 2017 por autoridades dos EUA e outros países.

Conforme relatado pelo site da Hydra no ano passado – que está escondido na rede Tor e só pode ser acessado por meio de um anonimizador de IP – seu objetivo é expandir suas operações de drogas ilegais em todo o mundo. Isso inclui especificamente os países do Ocidente. A ideia era buscar aumentar US$ 145 milhões em investimento por meio de uma venda simbólica. O lançamento da operação estava previsto para dezembro de 2016.

Hydra: tokens de US$ 100 e paralização repentina

O mercado incentivou os clientes a comprar um pacote de 100 tokens com preço de US$ 100 cada – que pode ser comprado diretamente do site com Bitcoin (BTC). Os ativos também dariam ao comprador 0,003% dos direitos da empresa, além de lucros gerados pela Hydra. No entanto, a plataforma não divulgou a blockchain à qual os tokens seriam associados.

De acordo com um memorando publicado pela Hydra, “isso iniciará uma nova era no Ocidente. A escala de expansão é difícil de imaginar.”

A Hydra teve que adiar a inicativa devido à pandemia. Dessa maneira, mais uma vez reforça a impressão de que a operação também tem todos os fundamentos de exit scam.

A mensagem revelando o adiamento do lançamento do projeto devido à pandemia.

No entanto, é curioso notar que Hydra parece ter uma posição proativa em relação ao adiamento. Um exemplo é a mensagem amigável para sua base de usuários:

“Todos os que compraram os tokens terão o dinheiro devolvido integralmente às suas contas. Obrigado por estar conosco. Avisaremos quando retornarmos ao projeto. ”

No entanto, as informações sobre o sucesso dessa operação de arrecadação de fundos são bastante ambíguas e vagas. Ainda não se sabe se houve sucesso ou não em atrair investidores.

Transação suspeita supostamente liga ArbiStar à Hydra

Após avaliar uma transação feita pela ArbiStar, a Tulip Research descobriu uma transação suspeita que possivelmente a ligava ao mercado Hydra. Em 16 de setembro de 2020, a Tulip Research relatou em seu feed do Twitter:

“O endereço de onde a ArbiStar pagou 274 usuários em 23/03/2019, recebia os Bitcoins de um endereço que, na mesma transação, também enviava BTC para 18 contas vinculadas ao Hydra Market: o mais famoso mercado negro russo na darknet. ”

A pesquisa da Tulip descobriu que o endereço que a ArbiStar pagou a um total de 274 usuários em março de 2019 também aceitou a transação de 11.917 BTC. Ela, por sua vez, também distribuiu satoshis para 18 contas diferentes que estavam conectadas ao Hydra Market.

Essa conexão possa parecer pequena comparada ao tamanho da ArbiStar e de seu fundador. Entretanto, não é possível ignorar o rastro deixado para trás.

Por exemplo, a Tulip Research também descobriu que a ArbiStar estava usando o BTCPayServer no ano passado, aproveitando um recurso chamado PayJoin. PayJoin é um meio de pagamento que permite transações P2P mais anônimas. Ela adiciona um elemento de ofuscação melhor em comparação aos métodos de transação tradicionais para esconder o paradeiro do dinheiro.

Os pesquisadores forenses foram capazes de rastrear vários movimentos feitos pela empresa com as transações recebidas antes dessa implementação. Aplicando métodos heurísticos, endereços separados podem ser relacionados e, portanto, distinguidos como pertencentes a uma única organização.

Fuentes se defende, mas dúvidas permanecem no ar

O interessante é que, em uma entrevista recente , Fuentes colocou a responsabilidade pelo suposto erro do bot na equipe de desenvolvimento. Os programadores, segundo ele, já não trabalhariam para a ArbiStar desde a data em que a empresa percebeu que “eles não estavam trabalhando direito”. Fuentes explicou:

“O bot não está com defeito, mas sim a comunicação entre suas operações e o que é mostrado nas telas do cliente. A partir do momento em que o descompasso foi detectado, bloqueamos a retirada de pagamentos (saques). Desde 1º de agosto, não houve promoção ou publicidade do Community Bot nas redes sociais.”

Fuentes ressaltou que o valor real não tem nada a ver com o divulgado na mídia. Ele revelou ainda que o plano da empresa é reembolsar todos os afetados no prazo de 12 meses. Dessa forma, as vítimas do suposto erro poderiam recuperar investimentos e obter lucros com os produtos da empresa.

Questionado se a ArbiStar tem licença para receber dinheiro de investidores, Fuentes afirmou que não é necessário. Ele se defende dizendo que a empresa lida com criptomoedas que, pela lei, não são consideradas dinheiro.

No entanto, todos esses fatores e o histórico suspeito tornam tudo duvidoso. Ainda não se sabe por que a ArbiStar continua a insistir em atuar sem anuência de reguladores de valores mobiliários. O mesmo vale para natureza de sua relação com o gigantesco mercado da dark web russa, Hydra.