Hathor: como blockchain híbrida brasileira resolve o dilema do Ethereum

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EM RESUMO
  • Projeto surgiu de doutorado de engenheiro brasileiro e é a base tecnológica da empresa de NFT de Felipe Neto.

  • Hathor diz ter a solução para escalar com transações sem taxas sem prejuízo à segurança ou descentralização.

  • Empresa foca em facilidade de uso para tokens e contratos inteligentes sem programação.

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O Ethereum pretende ser o computador mundial para processar transações, mas até lá precisará provar ser capaz de resolver problemas críticos. Um engenheiro brasileiro, no entanto, já pode ter criado um modelo capaz de sobreviver ao temido problema da escalabilidade que freia a adoção do ETH – a proposta ganhou vida na Hathor Network.

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A Hathor surgiu a partir de um trabalho de pesquisa de Marcelo Brogliato, engenheiro da computação Instituto Militar de Engenharia (IME), doutor pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e CTO da Hathor Labs.

A solução pensada por Brogliato passa por aliar características vistas na criptomoeda IOTA com outras do Bitcoin para criar uma blockchain híbrida que pretende resolver os problemas de escalabilidade que tanto freiam o crescimento do Ethereum.

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Na Hathor, as transferências não têm taxas, ficam mais rápidas com o aumento da adoção e são apoiadas por uma blockchain com hashrate que já chegou a 33% do Bitcoin Cash.

Recentemente, o projeto chamou atenção da Play9, empresa do youtuber Felipe Neto que acaba de entrar no ramo de NFTs e vai cunhar os tokens na rede da Hathor. Além disso, a Liqi, empresa de tokenização do fundador da BitcoinTrade, Daniel Coquieri, também planeja usar a tecnologia como uma das blockchains para emitir tokens de futebol.

Transações de HTR de graça

A tecnologia usa dois mecanismos de validação: de um lado, uma blockchain semelhante à do Bitcoin, e de outro uma DAG que carrega todas as transações – a Hathor atualmente processa centenas por segundo, já bem mais do que as 15/s do ETH, mas com a promessa de romper a barreira das milhares de transações a cada segundo “com algumas otimizações”, segundo os desenvolvedores.

DAG é uma tecnologia DLT que verifica transações baseada em transações passadas. Se um bloco do Bitcoin é baseado nos blocos anteriores, em uma DAG a ideia é levar em conta apenas as transações que passam pela rede.

A proposta chama atenção porque se beneficia daquilo que no Ethereum é um problema: enquanto a rede do ETH fica cada vez mais congestionada quando aumenta o número de usuários, na DAG as transações ficam ainda mais rápidas e confiáveis quanto maior for o volume transacionado. E sem custo nenhum.

A DAG também tem o benefício ambiental, pois não exige gasto energético para executar cálculos matemáticos complexos. No entanto, sua aplicação não foi tão bem sucedida no mundo real: quando não há transações suficientes, a rede não tem como verificar novos dados e pode ficar parada.

Foi o que aconteceu diversas vezes com a IOTA, criptomoeda mais famosa a adotar a solução e que foi obrigada a recorrer a um nó coordenador para não paralisar transações. A solução, portanto, veio ao custo da centralização.

Para resolver esse problema, a Hathor conecta a DAG a uma blockchain que permite minerar blocos via Prova de Trabalho, assim como o Bitcoin – e inclusive com o mesmo algoritmo e, por isso, com a mesma rede global de mineradores.

Hathor e o algoritmo do Bitcoin

Rede da Hathor mistura DAG (em branco) com blockchain PoW (em verde). Divulgação: Hathor

A Hathor diz ter uma tecnologia que representa a “evolução natural do Bitcoin”. Um dos motivos pelos quais ela rapidamente se popularizou entre mineradores de BTC é porque pode funcionar como uma espécie de renda extra para esses profissionais.

Como a Hathor utiliza o mesmo algoritmo do Bitcoin para mineração, a mesma máquina que minera BTC pode encontrar blocos da Hathor e obter tokens HTR como remuneração sem impactar no desempenho do equipamento. A solução é chamada de merged mining (mineração fundida).

“Por que a gente não tem 100% do poder de processamento do hashrate do Bitcoin? Porque a gente ainda não é conhecido por todas as pools de mineração”, afirma com otimismo Gabriel Aleixo, pesquisador e Business Developer da Hathor.

“É claro que pode ter algum maximalista que só quer minerar Bitcoin, mas nem nesse aspecto faria sentido, porque você pode simplesmente minerar Hathor, vender instantaneamente e converter para BTC”.

Curiosamente, outro projeto que adotou uma solução parecida no passado foi a Dogecoin (DOGE), que adotou o merged mining em agosto de 2014 e, com isso, passou a usar o mesmo algoritmo da Litecoin (LTC).

Consequentemente, todos os mineradores de LTC passaram também a poder minerar DOGE sem custo adicional. segundo um estudo da Binance, desde então o hash rate das duas moedas passou a ser muito parecido.

“Isso, de certa forma, fez com que a Dogecoin sobrevivesse até hoje”, diz Aleixo.

Token com três cliques

A Hathor, no entanto, não se apoia somente na tecnologia e tem um modelo de negócios que visa conquistar usuários iniciantes no mundo das criptomoedas. Segundo a empresa, “até uma criança de 12 anos” pode criar seu próprio token com três cliques.

Em testes conduzidos pelo BeInCrypto, de fato a plataforma se mostrou muito simples: pelo app da carteira é possível depositar os HTR necessários e criar um token próprio na rede da Hathor sem conhecimento técnico para além do que já se espera de alguém que já é usuário de criptomoedas.

O projeto aposta nessa facilidade para estimular a adoção da plataforma e fazer o ecossistema crescer, ajudando a criar demanda para o token HTR. Como o ativo não é usado para pagar taxas, seu uso na plataforma é a única maneira, por ora, para gerar pressão de compra.

O modelo econômico é baseado em uma proporção 1:100 para a oferta de um token criado na rede. A empresa dá o exemplo de uma stablecoin criada na Hathor: se o ativo tiver supply de 1.000.000, será preciso depositar 10.000 HTR no contrato para emitir o token. O valor equivale, nesta quarta-feira (16), a cerca de US$ 4 mil, ou R$ 20.000.

Assim como no mercado imobiliário, o investimento não se perde após levantar o projeto. O criador pode, a qualquer momento, devolver os tokens e recuperar a quantidade equivalente em HTR de volta para a carteira.

“Tem gente usando isso para criar programa de fidelidade, de cashback. A gente está começando com dois projetos de tokenização de ativos reais, de debêntures, de imóveis. Tem até pessoas tokenizando bebidas de luxo, social tokens, NFT”, conta Aleixo.

O projeto, no entanto, vê a tokenização como uma porta de entrada para algo maior, e aposta na ideia de que a maioria dos usuários não precisa das funcionalidades mais avançadas para tirar suas ideias do papel e colocar na blockchain.

Nano Contracts

A Hathor agora se prepara para lançar os primeiros Nano Contracts, que são versões pré-prontas de contratos inteligentes para customizar e lançar de maneira mais simples.

Em vez de focar na versatilidade do Ethereum, a proposta é oferecer os principais recursos esperados de um smart contract em templates mais fáceis de usar, sem a necessidade de conhecer a linguagem de programação Solidity.

Um dos Nano Contracts já desenvolvidos, por exemplo, pode ser configurado tanto para criar um sistema de derivativos financeiros, em que o próprio contrato faz a compensação de pagamentos entre as partes; ou para construir uma bolsa de apostas, arbitrando valores, recebendo e pagando quem acertou.

A solução, segundo a Hathor, pretende também reduzir drasticamente a chance de exploração de vulnerabilidades por hackers em ataques usando flash loans, por exemplo, que viraram corriqueiros no mundo DeFi.

“A gente brinca na Hathor que a gente quer ser a Wix de blockchain”, afirma Aleixo, em referência à plataforma de criação de sites no esquema ‘arrasta e solta’.

“Quantas empresas querem fazer o que a MakerDAO faz? Poucas. Agora quantas empresas vão querer ter token próprio para funcionar como fidelidade? É nesse tipo de caso massificado que a gente tem focado.”

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Sou jornalista e especialista, pela USP-SP, em Comunicação Digital. Já trabalhei em rádio e impresso, mas boa parte da minha experiência vem do online. Colaborei entre 2013 e 2021 com o Grupo Globo na área de tecnologia, onde já cobri assuntos diversos da área, de lançamentos de produtos aos principais ataques hackers dos últimos anos. Também já prestei consultoria em projetos do Banco Mundial e da ONU, entre outras instituições com foco em pesquisa científica. Entrei no mundo das criptomoedas principalmente na cobertura de ataques cibernéticos e golpes no Brasil. Atuei como repórter e depois como editor-chefe do BeInCrypto Brazil entre abril de 2020 e setembro de 2021.

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